quinta-feira, 22 de março de 2012

DESCIVILIZAÇÃO

Mesmo interagindo nesse universo tecnológico que propicia grandes saltos na aquisição de informação e na propagação virtual da comunicação, somos interpelados por incivilidades assombrosas.
1. Nesse meio de semana dois jovens de classe média, agridem deliberadamente um casal de namorados, num banco de praça; a garota conseguiu fugir e chamar a polícia. O rapaz, foi espancado até cair e se fingir de morto para se salvar. A alegação da dupla bucéfala: "ele era negro... e macaco tem de apanhar...não pode conviver na sociedade"!
2. Mais uma vez, uma tradição chauvinista e autoritária de jovens de classe média, fez vítimas. Um jovem que acaba de ingressar no curso de engenharia na  Universidade Federal dos Pampas, foi submetido ao trote universitário, obrigado a  ingerir quantidade excessiva de álcool. Foi internado com problemas de saúde agravados.
Essas práticas opressivas de poder não ocorrem apenas em grupos específicos, carentes de saúde, moradia, escolarização. Elas se dão na capilaridade do social. Elas ocorrem nos mais distintos grupos. Ao contrário do que pensa ou querem que se pense, ocorrerem apenas na pobreza, a mediocridade e a violência estão se propagando em diferentes arenas do social em embates por significados hegemônicos, ainda centrados em antigos conhecidos em nossa sociedade: machismo, homofobia, racismo, branquidade entre outras formas de opressão que existem nos mais diferentes grupos e classes sociais.
A Incivilidade, a Descidadania não tem distinção de classe, gênero, sexo, etnia. Elas estão ai, se propagando e fazendo vítimas.

Como estão o casal agredido que namorava na praça e o jovem que ingressou na universidade? Como estão os familiares dessas pessoas? O que está acontencendo com os agressores descivilazados? Quais os desdobramentos desses funestos episódios nesse país onde ainda se propaga uma opressão da branquidade e de universitários que se revestem de um poder opressivo por serem veteranos?

Zelão
zelosmegatrend@uol.com.br;              

terça-feira, 13 de março de 2012

HARRY NO BRASIL: FETICHE FESTIVO


Qual a razão dessa presepada com príncipe Harry no Brasil? Parece aquele antigo desejo incubado de querermos ser monarquia para sair na revista dos Caras! Principe Harry peidou na Urca! Príncipe Harry tem chulé após tirar o tênis na praia! Harry, Hermione e Dumbledorf fazem show de magia no Rio!
Viva a República!

FAUSTOLICES

Pela lógica medíocre de programas como o Domingão do Faustão, achincalhando gordos, loiras, exibindo crianças caindo, se machucando em cenas que querem parecer engraçadas, é bem provável que em um desses domingos divertidos, exibam imagens do jetisqui atropelando e matando a garotinha na praia do litoral de São Paulo para gargalhada geral da mediocridade nacional que dá audiência a esse tipo de entretenimento!

domingo, 27 de novembro de 2011

13. USADORES DA CIDADE TODA, UNÍ-VOS!

Se considerarmos Cidade como teia tecida pelas opções políticas dos cidadãos, onde explodem suas ações cotidianas em constantes tensões, tanto no campo tangível (aquilo que se materializa) quanto no campo não tangível (os significados que são forjados no jogo social), podemos refletir sobre as multiformas de intervenção, as polilógicas de ocupação, a multiplicidade desenhada cotidianamente por seus usadores. Apropriei-me desse conceito por considerá-lo potente para tratar da complexidade da relação cidadão/cidade. De acordo com Marcelo Faria, Geógrafo, Economista e parceiro da labuta cotidiana, usador é um termo cunhado por Henry Lefèbvré para designar os indivíduos que se apropriam do espaço urbano. Para ele, esse termo não equivale a usuário, posto que esse último é uma referência ao uso consentido e não apropriado do espaço urbano. Penso que, na provocação aqui lançada, ele dê conta de trazer as ambivalências dos movimentos e das relações cidadãos/cidade.

Funcionalidade é o que caracteriza os movimentos praticados por esses usadores que a criam/alteram e que são criados/alterados por ela. Por mais que tenham sido planejadas, as cidades vão sendo configuradas pelas necessidades e funcionalidades de seus usadores. Nesse jogo cotidiano, tanto abastados quanto necessitados, tanto incluídos quanto excluídos traçam seus desenhos em função de operacionalidades que atendam diretamente seus interesses.

O tema Cidade, desde os primórdios de sua história, tem importância significativa na vida de seus usadores. Entretanto, hoje, parece que estamos tomados apenas por nossas exclusivas funcionalidades e perdendo o senso de coletividade e de comunidade. Estamos nos tornando bombas demográficas, e cada um de nós - ou aqueles que consideramos iguais - é um detonador em potencial desse aparato explosivo. Não estamos discutindo as tessituras onde nos configuramos como cidade/cidadãos na perspectiva comunitária. Temos refletido pouco e agido menos ainda nessa direção. Temos degladiado muito mais como inimigos que não se aceitam nas diferenças, disputando seus espaços, do que seres diferentes na multiplicidade, que precisam conquistar respeito, direitos, para elaboração de projetos que mobilizem as comunidades para o bem comum, para a consciência de que a teia que tecemos é tecida junta, na diversidade, por isso ela é complexa. Nossa participação nesses projetos têm sido ínfima ou nenhuma.

Dentre as inúmeras questões visíveis e sentidas que emergem desses contextos, duas delas são aqui trazidas como provocação para refletirmos sobre as tais teias. Vamos a elas.

Vejamos primeiramente a movimentação para o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano do Município do Salvador – PDDU 2007. Numa matéria publicada no A Tarde Cidades, pesquisa do Instituto Vox Populi mostrou que, em novembro daquele ano, somente 26% da população de Salvador tinha noção do que era o PDDU e que somente 0,2% contribuiu para o projeto de lei da cidade do Salvador. Esse dado revela como elites privilegiadas de usadores abastados vêm definindo a cidade de acordo com o que querem para si, alijando a massa de usadores dessas decisões sobre o movimento da cidade. Políticos mantidos por esses grupos propõem e aprovam leis que asseguram suas próprias funcionalidades, como se elas fossem demandas gerais. A cidade corre o risco de ser loteada entre esses grupos poderosos que passam a forjar verdades que se tornam hegemônicas, subjetivando as dinâmicas da vida nas cidades. Verdades do tipo ”precisamos dessas reformas, desse embelezamento que nos permitirá viver bem, com mais modernidade, como cidadãos do futuro” tornam-se paradigmas emergentes sem que haja discussão e definição desses conceitos para o coletivo.

A ocupação da rua onde moro, na Pituba, bairro de classe média da soterópolis, nesses últimos 6 anos, ilustra essa situação: numa extensão de 300m de comprimento, há 19 prédios que possuem, em média, 15 andares com 4 apartamentos cada. Se considerarmos que, nesse total de 1140 residências dispostas na vertical, existam famílias com, no mínimo 3 pessoas, e que cada uma delas tenha, 2 carros, teremos 3.420 pessoas querendo ir e vir com seus 2.280 veículos nesse trecho! Devo salientar que dois desses edifícios estão em fase de finalização. Mas até o fim de 2012 estarão abrigando novas famílias para conviverem nesse espaço. E certamente todos disputarão cada milímetro dele, buzinando, trafegando estressados, querendo acelerar de 0 a 100 km em 2 segundos, em 30 metros; estacionando sobre as calçadas, em portas de entrada e saída de veículos, em locais que estorvam todo trânsito e coisas do tipo. E todos felizes por terem adquirido seu apezinho com muito esforço (o que é louvável), mas sem querer discutir suas vidas a partir dessa ocupação. Nem vou me arvorar aqui para tratar da vida nos condomínios. Isso é para um outro ensaio!

Por onde andamos nós, usadores dessa cidade? Qual foi nossa mobilização para o PDDU? Como temos trabalhado com as decisões e os encaminhamentos de nossos representantes? É notório que estamos desinteressados, desdesejosos, destesonados com o coletivo.

Outra questão que trago é a de uma barbárie estética, invasiva, desrespeitosa das leis de propaganda nas vias urbanas, poluidora visual que demonstra bem as intenções de seu autor/autores com a cidade: danem-se e consumam meus serviços! Estou tratando da aberração promovida em bairros da soterópolis por um tal, ou uns tais “Pego Entulho. Faço Carreto - 9280 2824, 8887 8683, 8329 2449”. O autor ou os autores dessa intervenção marqueteira poluidora, deliberadamente, pintou/pintaram seu recado e telefone em sequências de postes de inúmeras ruas da cidade. É pouco provável que tenha obtido autorização de alguém. Que poder público autorizaria uma atitude dessas? Evidentemente esse “criativo” não pagou por isso, pisoteou as regras, as leis que vigoram na cidade para a propaganda nas ruas. É uma atitude de dane-se todos os usadores! Sua mensagem em nada contribui para a melhoria da qualidade de vida, para a emancipação dos cidadãos. Não é de interesse popular, pois está em bairros onde os moradores têm condições de pagar por seus serviços. Seus lucros não serão divididos ou investidos na comunidade, no social. Onde estão os poderes públicos Municipal e Estadual para impedir e punir autores de atitudes como essa? A julgar pela condução de outras políticas públicas e encaminhamentos relativos à cidade, podemos fazer ideia! Que tipo de cidade estamos nos tornando ao sermos coniventes com tais ações? E mais: ao utilizarmos esse serviço como se fosse de utilidade pública? Quem vai bancar os serviços de limpeza dessa poluição visual na já tão judiada e quase abandonada Salvador? Será que ninguém viu o pintor desses postes? Será que os usadores e usadores autoridades públicas não ficaram sabendo disso? Os telefones estão lá estampados nos postes! Vai ficar por isso mesmo? Usadores, cidadãos, contribuintes, Vereadores, Deputados, gestores do Executivo, onde estamos nós? Pior! Corremos o risco de assisti-lo numa entrevista no Fantástico, na Rede TV, como genial! Ainda teremos de ouvir que foi uma atitude arrojada, ousada, transgressora de um criativo que lançou uma campanha agressiva para seu negócio! Pouco vai se tratar de sua arbitrariedade e desrespeito ao espaço público, às leis que vigoram na cidade, ao cuidado com o espaço coletivo como possibilidade de qualidade de vida; enfim, nada será discutido e acionado em favor das regras coletivas.

Penso que devemos utilizar os telefones propagandeados nos postes para uma manifestação coletiva, ligando insistentemente para ele ou eles, exigindo que a limpeza dos postes públicos seja feita imediatamente, com verba própria, sob pena de ser processado pelo Poder Público e boicotado pelos usuários desse tipo de serviço! Devemos fazer contato também com os órgãos responsáveis para uma ação mais enérgica, fazendo valer a autoridade do coletivo da cidade.

Não proponho aqui censura à comunicação. Mas, sim, discussão e decisão nas instâncias devidas, que representam a coletividade. Aqui emerge contradição com o conceito usadores, de Lefèbvré. As construtoras daqueles empreendimentos que se efetivam pela ausência do debate, por falta de conhecimento e participação da coletividade, bem como os “criativos poluidores” visuais das vias urbanas, são também usadores. Apropriam-se do espaço urbano sem consentimento da oficialidade. Porém ela pode ser superada se entendermos que esse tipo de apropriação é umbigóide, centrada exclusivamente em seus interesses e funcionalidades. Talvez o termo usurpador seja mais adequado a esse tipo de cidadão do que usador. Sua apropriação não está na perspectiva da coletividade, e sim de uma lógica do capital que exclui e alija o coletivo.

Queremos ser essa cidade que estamos vivendo e tecendo? Queremos ser usadores/cidadãos tecidos por esse tipo de movimento?

Usadores da cidade toda, uni-vos!

Zelão
zelosmegatrend@uol.com.br
publicado no portal: http://www.caramure.com.br/artigos/usadores-da-cidade-toda-uni-vos/

sábado, 24 de setembro de 2011

12. REFÉNS DE NOSSO BUNDAMOLISMO

A partir de agora, eu e minha companheira somos parte das estatísticas sobre violência nesse país latino americano, emergente, festivo, que vive da auto-imagem decrépita de se achar cordial e de uma identidade de povo do futuro, forjada talvez, como auto defesa para as mazelas da pobreza e da miséria que “até há pouco” nos caracterizava.

Vivemos o drama de termos sido assaltados coletivamente, numa farmácia, em pleno cair da tarde, nublado e abafado pelo mormaço da soterópolis.

Dois caras e uma garota, não mais de 20 anos, pessoas comuns, tensos nas ações e racionalmente objetivos para submeter a todos que ali estavam, anunciaram a ação! Parte de nós para o balcão e outra para um canto, atrás das caixas ordenados para que sentássemos no chão. Armas em punho e em guarda (um portava dois 38, um prateado, novíssimo e reluzente e mais um, preto. O outro, com outro 38 surrado e inquieto nos movimentos de sua mão, também, preto), intimidando, ameaçando e “tranquilizando-nos”, vermes acuados com vertigens, tremedeira, pavor e quase sem controle dos esfíncteres (eles também, com certeza estavam assim, só que no controle total da situação!). Em menos de 5 minutos limparam-nos de nossos pertences e valores em espécies, enquanto a outra protagonista da ação que compunha o trio impunha o pavor utilizando sua fala, sua voz e palavras como arma, tão possante quanto às de ferro dos outros dois.

Tentando centrar-me, buscando respiração adequada, sentia/pensava em meus filhos: como será que ficarão caso ocorra algo radical nessa arena? Sentia/pensava em minha companheira que havia ficado do lado oposto ao meu, no balcão: será que se estivéssemos juntos e ocorresse a radicalização iríamos juntos? Não, melhor ficarmos separados para tentarmos garantir a sobrevivência de um de nós. Se sairmos dessa, como nos sentiremos? Como trataremos disso sem cair nas armadilhas do discurso fácil e medíocre de plantão sobre “extermínio” da violência? E se alguém reagir? E se os funcionários da farmácia não quiserem entregar o dinheiro exigido? E se a polícia chegar nesse momento? E se eles verificassem a bolsa que minha companheira dispensou no balcão, pelo meio das caixas para que ficasse ali sem dono e encontrassem nossos cartões (endividados, mas com saldo extra (!) por eu ser importante para os bancos e administradoras de cartões de crédito, segundo o Capitalismo Parasitário, de Bauman) e quisessem nos levar para um rolê de terror pelos caixas eletrônicos? E se eles tivessem achado que poderiam ser reconhecidos quando trocamos olhares naquelas tensões?

Fiquei lembrando dos embates entre Luciano Huck e Ferréz, ocorrido após o empreendedor e filantropo apresentador ter sido assaltado, nos Jardins, em São Paulo. Lembrei da forma pedante como pensa e se pensa nessa sociedade expressando autocomiseração, através da auto-imagem revelada no texto que publicou, na Folha de São Paulo: “por que eu, esse cara bacana que ajuda todo mundo pela TV” e coisas do tipo? “por que eu, essa celebridade do bem?” Tomara que Huck tenha aprendido que nessas situações o protagonismo é das celebridades que, de armas empunhadas, encenam os mais grotescos trilers de pavor nas cenas cotidianas desse país. Comerciante, operário, médico, engenheiro, bancário, advogado, artista, comerciário, professor, nesse filme real tornam-se vermes coadjuvantes. As celebridades são os vermes sociais que temos gerado e nos recusado a ver. Eles crescem, proliferam e transbordam das margens, do alijamento de tudo e retornam. Tornamo-nos vermes, também, por fingir que isso não está acontecendo e quando somos interpelados por essas insurgências queremos a “solução final”, a extirpação do mal pela eliminação, como vem propondo uma pedagogia emergente de parte das elites e daqueles que se consideram ou ficam querendo ser elite nesse país, nesse estado, nessa cidade. Nossa humanidade, nosso humanismo é posto à prova nessas situações.

Medo, lixo, excremento, medo, dados de estatística, desesperança, mais medo, descrédito, vazio existencial, desejo de acordar de um pesadelo torpe...! Fila indiana como animais para o abate, nos conduziram para os fundos da farmácia, rumo ao banheiro minúsculo. Tremedeira, tensões, choros contidos, ira transpirando pelos poros, desespero de mulher grávida, solidariedade e cuidado com os ânimos... foram embora como chegaram! Desfalecimento coletivo! Saímos do cubículo, novos clientes chegando e percebendo o que estava acontecendo ali. A vertigem nos tomava, enquanto pegava a medicação, razão pela qual passei nessa farmácia para adquiri-lo, deixando o troco dos R$ 5,00 que dava à caixa quando os desenquadrados nos enquadraram.

Coracérebro multirreferenciado por questões emocionais e racionais profundas e confusas fui abatido pelo bundamolismo, estado pós-traumático de seres que, desesperados e tomados pela força do “sem saída”, ampliam sua ira inerte diante de calhordas parlamentares de Brasília que acabavam de aprovar salto salarial para o descarado patamar de R$ 26 mil reais, mensais, desdenhando dos cotidianos das comunidades desse país. De governadores, vereadores e outros profissionais da cabotinagem política brasileira, nem um pouco inquietos com a geração de monstros sociais que estamos procriando nas diferentes classes sociais, no Brasil, por descrédito de suas atuações e instaurando a barbárie: uns querendo possuir para a pertença às identidades de consumo e de visibilidade social que sem condições para isso, tiram de quem tem através de formas brutais, autoritárias e violentas. Outros, pela pertença solitária ou seletiva, esbanjando descaso e contribuindo com a miséria existencial que assola nossas relações, não se mobilizam para pensar coletivamente um projeto social. Ambos jactantes de si, de suas pertenças/poder, de seus estados fálicos e truculentos para tratarem dos dilemas coletivos institucionalizando a barbárie. Ambos assassinos em potencial do outro pelo estado zerado de alteridade, alimentados pela lógica da diferença que inferioriza, anula, invisibiliza quem não pertence à tribo/nação do outro por questões de classe, étnicas, sexuais, consumistas, enfim, culturais e econômicas e por não vislumbrarem um projeto coletivo de nação que tenha a diferença como fundante na perspectiva de Boaventura Sousa Santos: “sermos diferentes quando a igualdade quer nos homogeneizar e de sermos ao mesmo tempo iguais quando a diferença quer nos inferiorizar”.

O bundamolismo nos faz um aglomerado de acéfalos desmobilizados com a existência, com a cidadania, com os sentidos políticos e políticas de sentido que produzimos no social. Chafurda-nos numa “ditadura da alegria” (No Stress, Sorria Você Está na Bahia, Deus é Brasileiro, Nossa Cordialidade que Canta e Encanta, Pior do Está Não Pode Ficar...) que mantém a opacidade ou o impedimento da divulgação de fatos e processos que possam macular essa imagem, esse estado de letargia tropical da felicidade definidor do tom dos encaminhamentos dos poderes públicos e midiáticos com o social. Uma ditadura da felicidade que nos transforma em seres complacentes e conscientes desse estado de esculhambação que respiramos, reclamamos e pior, construímos a cada pleito eleitoral. Somos responsáveis sim, por todas essas mazelas e desdobramentos violentos e de descasos com a saúde, educação, moradia, segurança.

Recuso-me à conformação de sermos mais um dado que alimenta os bancos de pesquisa do social acadêmicos ou midiáticos! Recuso-me a continuar existindo e interagindo em um país que é “assim mesmo”! Recuso-me a aceitar uma política pública de segurança inoperante e truculenta, que só atua nos mega shows de Sangalos e Chicletes! Recuso-me a conivência com esses slogans medíocres sobre o governo que chega a todo lugar... “agora tem, tem, tem...” Tem o que? Para quem? Campeão em processos não solucionados nosso Estado segue contribuindo com a impunidade e geração de criminosos tanto entre os mais abastados, quanto entre os mais necessitados, apregoando e acreditando que esses problemas com a violência estão sendo importados do Sul/Sudeste em razão de não termos essa índole ou esse tipo de coisa aqui na Bahia!

Não educamos para um projeto coletivo de sociedade. Não julgamos por conta da morosidade de um judiciário togado e modorrento. Não punimos por termos medo e não lidarmos bem com isso, uma complacência medíocre nos abate e sempre tentamos dar “um jeito” nelas. Se punimos, utilizamos um sistema prisional (in)administrado como caixa de fezes onde despejamos os dejetos que muitas vezes nem tiveram chance de não sê-lo. Não somos uma sociedade, educadora, administradora, cuidadora e muito menos solidária. Só quando estamos nos afogando em enchentes ou querendo ver o mega show Criança Esperança. Peço desculpas às minorias e exceções dos quadros que aponto aqui. Mas, precisamos deixar essa condição de minoria heróica e solidária para nos tronarmos humanos que precisam aprender a conviver nas diferenças com respeito, solidariedade e dignidade.

Não podemos dizer “ainda bem que saímos ilesos dessa história”! Sair de uma situação como a que vivenciamos na farmácia não configura condição de ‘ilesados’! Viver na situação de descaso do poder público para as mazelas sociais não é compatível com ‘ilesidade’! As marcas deixadas são profundas e desalentadoras. Temos sido lesados cotidianamente por calhordas na política, nas relações sociais, nas tensões cotidianas onde ocorrem embates e negociações por significados culturais disputando o poder hegemônico. São mortes, muitas mortes, da cidadania, da confiança, da solidariedade, de vidas e quase de utopias e esperanças.

Zelão
zelosmegatrend@uol.com.br

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

11. SIGNIFICADOS POSSÍVEIS DA TERRA DO SALVADOR EM TEMPOS PRESENTES DE AXÉ

Quais significados configuram essa terra tão decantada nesses anos de história que adentram o novo século? Para uma grande maioria de brasileiros e não brasileiros, dentro e fora do Brasil, Salvador é significado de Bahia. Esse estado da Federação, ou essa identidade cultural aparece na mídia via Salvador. Fora disso, quando muito, configura-se nas novelas e em outros programas que trazem caricaturas do sertanejo como baiano e nordestino. A multiplicidade de Bahia e baiano não cabe em reducionismos simplificadores e uniformizadores como temos constatado na mídia e no mercado.

Nesse pequeno ensaio, quero tratar do contexto festivo de Salvador como significado de Bahia em seus 462 anos. Penso em duas referências mobilizadoras para refletirmos sobre isso.

O baiano Albergaria, em sua perspectiva anarcoantropológica propõe três marcos culturais interessantes para pensarmos a Bahia no século XX: a Bahia do imaginário de Jorge Amado, a Bahia dos Novos Baianos, da Tropicália e a Bahia do Axé. Segundo ele, a 1ª Bahia é aquela dos pescadores com chapelões de palha, das morenas brejeiras, das putas dos becos e vielas do Maciel, das puxadas de rede em Itapuã, de Cayme, Mario Cravo, Verger, Zélia Gatai, Dinha do Acarajé e do próprio Jorge Amado; uma Bahia da literatura, dos romances e tragédias tropicais. A 2ª Bahia á dos Novos Baianos, dos Doces Bárbaros, de Gil, Caetano, Gal, Bethânia; uma Bahia que se torna midiática, que ganha a comunicação de massa. A 3ª é a Bahia do No Stress, da terra da felicidade eterna, da curtição sem limites, onde o Axé, mais que um estilo musical, torna-se um estilo de vida, de consumo, um mercado promissor.

O francês Michel Maffesoli, sociólogo do presente, afirma que vivemos a presentificação da vida, o agora, onde não há mais espaço para o saudosismo do passado nem para a utopia do futuro. Tempos em que novas formas de solidariedade desconstroem os modelos vigentes na modernidade, centradas não no racionalismo, mas na emoção, no afeto e no prazer. Provoca-nos ainda, para pensarmos a Modernidade através do mito de Prometeu, deus do trabalho, da razão, da seriedade e pensarmos também o que ele classifica como Pós-Modernidade, via o mito de Dionísio, a desordem, a festa, o hedonismo. O sociólogo aponta que nesse tempo presente o trabalho tem seu lugar, mas o prazer, a festa, a emoção buscam o retorno de elementos que a Modernidade julgava ultrapassados, configurando um novo humanismo, juvenil e criativo, através de uma espécie de juventude eterna.

É sobre aquela 3ª Bahia e dessa presentificação hedonista que teço a rede de possíveis significados da Soterópolis em seu 462º. aniversário. E não creio que possa fazê-lo fora da perspectiva das ambivalências e da complexidade.

As festas do calendário da Terra da Felicidade ao mesmo tempo em que geram empregos, mesmo que temporários, informais e não-qualificados, promovem significados de subdesenvolvimento quando vemos os deslocamentos de famílias de suas residências na periferia e nos bolsões cravados pelos corredores da cidade, para os circuitos das festas instalando-se desinstaladamente em calçadas, meio-fios, com beliches, colchonetes, papelões, cobertores, inseridos nas mais nefastas condições de insalubridade.

Os trios, blocos e camarotes frequentados e habitados fugazmente por abastados (e até endividados) abrilhantam, sofisticam e embranquecem as festas e contrastam com os ambulantes, cordeiros e gente de todo tipo na pipoca que escurecem os eventos. Embranquecimento e escurecimento não são inocentes, não acontecem ao acaso, são forjados politicamente no social e revelam diferentes aspectos segregatórios que caracterizam essa sociedade reinterpretada nessas festas. De certa forma, elas reproduzem essas segregações.

Seus ídolos e heróis, artistas e profissionais de muito carisma e competência para aquilo a que se propõe demonstram profissionalização e criatividade animando a massa, ao mesmo tempo em que se transformam em ícones de mercado para consumo dos mais diversos produtos, inclusive impróprios para menores. Muitos se renderam à visibilidade midiática e aos cachês estratosféricos geradores de notoriedade que promovem afetações do tipo “sou criador de... e por isso eu posso e faço o que quiser”, “eu sou um presente para o povo”...

Sobre o carnaval especificamente, na saída de um dos grupos afro no Pelourinho (que realizava apresentação espetacularmente maravilhosa e vibrante), o governador fazia seu discurso com os viciados jargões sobre maior festa do mundo: baixos índices de violência, festa democrática e da diversidade, que gera trabalho e tira crianças da rua, enquanto por entre a massa empolgada da qual eu fazia parte, crianças “pretas, brancas, quase pretas e quase brancas” em situação de risco em todos os sentidos, disputavam acirradamente latinhas de alumínio e escarafunchavam restos de salgadinhos e outros petiscos deixados por turistas e locais.

O Axé como estilo de vida, como um jeito de ser e estar no mundo não demonstra lastros com o passado e nem vislumbra futuro. O passado é, no máximo, a música do ano anterior. E o futuro, o próximo trio que lá vem. O caro consumo desse estilo se assenta num forte hedonismo, na erotização da sexualidade, no prazer, na fugacidade e na perspectiva escópica (vejo e preciso ser visto para existir) em diferentes níveis, dos Vips aos Pipocas. Nessa lógica a vida tem de ser vivida intensamente agora, entorpecida por destilados, fermentados, alucinógenos e outros psicoestimulantes.

O POP de Salvador é abrangente/limitador: ele absorve toda e qualquer tendência. Brinco com isso, afirmando que se Beethoven fosse vivo, certamente seria convidado por uma das estrelas do POP soteropolitano para reger a 9ª. Sinfonia num trio elétrico no carnaval. Todos a ouviriam, interagiriam e entretanto, a ressignificariam tranformando-a numa levada de samba-reggae, pagode ou cavalgada. A diversidade é reconhecida até cair no liquidificador POP onde se AXÉdifica e passa a ser consumida. Torna-se uma espécie de diversidade do mesmo. Isso é estratégia para consumo, hegemonia de uma produção local transformando o global, conservadorismo por transformar o diverso em algo familiar e definir a diferença a partir de si, liberalidade por entender o diverso como quiser e transformá-lo no que quiser ou quê?
As propostas e produções diferentes do paradigma do Axé tem espaço mas não visibilidade. Aparecem como formas alternativas de “cultura” e entretenimento que se apresentam em espaços e horários de visibilidade um tanto nublada.

Essa Bahia do Axé gera visibilidade, recursos e emprego, mesmo que de qualidade duvidosa. Isso é notório e também comprovado nas estatísticas. Entretanto, não gera distribuição de renda. Não altera e perpetua com novas fantasias, ou melhor, novos abadás o modelo que concentra renda, praticado há séculos nesse país. A Bahia do Axé oferece possibilidades concretas de presentificação dionisíaca a consumidores ávidos por possibilidades hedonistas. Não basta só querer descumprir ritos da burocracia cotidiana, desopilar e extravasar. Há que se praticar tudo isso com visibilidade transmitida midiaticamente para o mundo. É preciso bater recordes de beijos na boca, de latinhas consumidas, de gente por metro quadrado nas ruas. A propósito, onde todos os recordistas urinam e defecam durante esse período?

Há muito mais na Bahia, em Salvador, do que a Bahia do Axé. Há um universo complexo, original de intensa criatividade que insiste em continuar existindo para além do enquadre da ditadura do prazer e da alegria e que também, promovem alegria e prazer. No mínimo, festas que se intitulam “da diversidade”, da “democracia”, “popular”, deveriam trabalhar melhor com horários, espaços, visibilidade midiática e promoções fazendo valer tal discurso. A proposta da TVE Salvador pode ser uma ótima referência nesse sentido mostrando a multiplicidade de expressões das festas Baianas, não só soteropolitanas.

Será que essa cultura, a do Axé e a do Presentismo Hedonista já se consolidou como significado hegemônico de Bahia, de Baiano? Será que queremos ser vistos, reconhecidos, subjetivados por esses significados, tanto na aldeia global como para nós mesmos baianos e não baianos que vivem e interagem aqui? É possível estabelecermos uma única identidade para a multiplicidade de Salvador, da Bahia, do Brasil? Não creio nisso.

Congratulo-me com esse povo bacana que é festeiro sim, que gosta do prazer sim, que leva a vida de seu jeito, sim. Mas, que não é só Axé Para o Agora, não! Tem muita história e muita perspectiva de futuro promissor, principalmente nas artes, na música, sim! Que esse povo e o governo eleito por ele (adormecido em berço sem oposições) olhem para si e se vejam na teia de significados possíveis praticados também com trabalho, seriedade, competência, e muitas gingas que transpassem essa fronteira de significado único e interaja na multiplicidade.

Parabéns Salvador!

Zelão
zelosmegatrend@uol.com.br

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

10. HIBRIDAÇÕES SOTEROPOLITÂNICAS

Dentre as tantas reflexões urgentes na contemporaneidade penso que cultura seja uma das mais instigantes. Ainda nos deparamos com arautos da “verdadeira cultura”, da “pureza cultural”, da “cultura correta” e com embaixadores da “cultura nacional”, da “cultura ocidental” ou com paladinos doutos definindo o que “é” e o que “não é” cultura, quem “produz” e quem “não produz” cultura.

Essas tensões estão presentes nas mais diversas expressões da comunicação cotidiana, em conversas corriqueiras, programas de TV e rádio, mensagens em outdoors, notícias e matérias em jornais, postagens em blogs sites entre outros. Parece que precisamos nos decalcar em modelos que aprendemos a significar como padrão para perceber e ver o outro. Se outro for igual, tudo bem! Estamos tranquilos. Mas se outro for “outro” estaremos reconhecendo a diferença e isso pode se constituir em potencial ameaça a igualdade que sentimos com os outros-iguais. Parece haver uma necessidade de definirmos, enquadrarmos, estereotiparmos, subjetivarmos o “outro” como inferior, não correto, não verdadeiro, não puro, fora do modelo que consideramos oficial e, portanto, algo que “não é”.

Refletir sobre cultura é questionar esses modelos, essa forma de vermos-nos como iguais e diferentes, pois estamos no universo das intersubjetividades, no universo dos significados, na linguagem, no discurso que promove o acesso à materialidade. Tais questões nem sempre aparecem objetiva e claramente, muitas vezes emergem sutilmente, subliminarmente, ocultamente, sem despertar necessidades ou desejos de questionamentos.

Penso que lidar com cultura requer criticidade para desvelamentos, desconstruções daquilo que é posto como verdade absoluta, aquilo que os teóricos desse campo denominam naturalizações. Em cultura, as desnaturalizações são estratégias para não ficarmos acobertados por “mantos da verdade”, “mantos do bem”, “mantos da igualdade”, “mantos que preservam nosso verdadeiro alguma coisa”. Em cultura há que se desacobertar para tratarmos dos significados produzidos nas relações e optarmos sobre se queremos ou não adotá-los para superarmos condição de quase reprodutores de significados definidos por alguém, por alguns que têm a pretensão de tornarem-se referência (de verdade, de correto, de pureza) e desprezar e as diferenças.

É recorrente em minhas reflexões a provocação do sociólogo Boaventura de Souza Santos sobre esse tema: temos de ser diferentes quando a igualdade quer nos homogeneizar e temos de ser iguais quando as diferenças querem nos inferiorizar. Sou pelas diferenças. Durante muito tempo fui pela igualdade, acobertado por significados não refletidos, não desnaturalizados. Queria tratar dessas questões sem saber, sem reconhecer sua complexidade e, portanto, a impossibilidade de tratá-las sem tensões.

Tratar da cultura é lidar com múltiplas tensões da ordem do social e do político. É lidar com a diferença como potência para superarmos posturas que classifico como umbigóides (autocentradas, ensimesmadas, que só têm a si como referência). Tratar da cultura é interagir com significados que estão em constantes embates e negociações. Nessa perspectiva não aceitaremos culturas “superiores e inferiores”, “cultura boa e cultura ruim”, “cultura certa e cultura errada”. Temos de conceber cultura como tudo aquilo que é produzido pelos humanos no social. Desde suas ideias sobre a vida, o mundo, sobre as coisas, até sua produção material. Tudo aquilo que afeta as subjetividades (sua forma de ver e sentir o mundo) e precipita suas ações. Tanto Bach, quanto Chiclete com Banana produzem significados culturais, produzem cultura. Tanto a decantada Paris, na França, quanto o sofrido Alagados, em Salvador, produzem significados, produzem cultura por que afetam subjetividades tornando-a isso ou aquilo. O consumo é uma modalidade de cultura nesses tempos de promoção de significados imagéticos e midiáticos do Capitalismo Tardio.

Não quero defender a aceitação acrítica de significados em nome de um relativismo acomodado, numa perspectiva multicultural passiva. Prefiro o Multiculturalismo Crítico, de Peter MacLaren. Esse canadense que discute currículo e cultura, afirma que opções devem ser tomadas, no entanto, refletindo e desvelando tais significados, desacobertando-os de seu sentido único, trazendo tensões em embates e não negando a existência, o não-reconhecimento daquilo que não é minha perspectiva. O discurso multiculturalista por si só acaba sendo uma grande colcha de retalhos onde parece que a multiplicidade de significados não é alterada e não se permite interações modificadoras mutuamente; mantém as diferenças nos quadros do “ado, a-ado, cada um no seu quadrado”! Ao contrário, criticidade com as tensões em embates podem gerar Respeito e não Tolerância com a diferença.


Tentando articular cultura e cotidiano na perspectiva que discorri até agora, trago uma provocação que me mobilizou fortemente nas tramas cotidianas da teia soteropolitana para seguirmos na reflexão sobre cultura.

Num domingo desses, sem relógio e sem pressa, procurando algum lugar para almoçar, acabamos assentando numa churrascaria, na Boca do Rio, bairro da Soterópolis. Enquanto fazíamos o pedido e aguardávamos os pratos, fui me apercebendo dos significados em tensão que se configuravam aquele espaço.

O local intitulava-se churrascaria. No entanto, fomos surpreendidos pelo garçom que nos oferecia pizzas no sistema de rodízio, de múltiplos sabores: queijo coalho, banana, carne de sol, brigadeiro entre outras; a churrascaria oferecia, ainda, massas: lazanha, caneloni, espagueti, fetuchine, em molhos diferenciados. Na sequência, nos ofereciam carnes variadas, típicas de um rodízio, calabresa, maminha, costela, picanha, lombo, frango, coração...

O amplo espaço onde estavam dispostas as mesas tinha as paredes decoradas com painéis de grandes dimensões que traziam paisagens rurais do Sul do Brasil, quadro com embarcações típicas, ancoradas em uma baia chinesa, ladeado por outros quadros com paisagens tropicas do Nordeste do Brasil.

À medida que percebia essa diversidade, aguçava-me mais ainda a percepção para a diversidade que acontecia nessas duas horas em que interagimos nessa arena de significados em embates.

Os garçons revelavam sua mestiçagem “biológica”, no tom da pele, nas características dos olhos, bocas, expressões em seus visuais mulatos e mamelucos, servindo mesas ocupadas por “loiras de farmácia”, “brancos com cabelo carapinha”, “negros”, garotos com “cabelos multicores”, uma pequena família japa” (como sei se são realmente japoneses? Será que apenas pelos olhos pequenos e puxados?) e por nós, eu e minha companheira, paulistas do interior e meus filhos, um nascido em Teixeira de Freitas no Interior da Bahia e outra, soteropolitana, aparentando traços de etnias europeias e indígenas. Tudo isso, aparente. E as outras referências que não observamos que não são tangíveis? Deveriam ampliar ainda mais o cenário e atores da diversidade. E como toda essa gente se vê e se sente? Com quais identidades se definem? Com quais identidades são definidos? As identidades são fixas ou têm mobilidade? Podemos celebrar as identidades como quer o sociólogo jamaico-britânico, Stuart Hall? Como tais diferenças se comportam nessa arena de significados? Há interações entre elas? Há alterações entre elas, Será que há pureza entre elas? Qual delas é a “verdadeira cultura”, a “cultura correta”, a “cultura superior” que define todas as outras?

Canclini, antropólogo argentino, referência importante para tratarmos de cultura nessa perspectiva e, em especial, das culturas latino-americanas, auxilia-nos para essa reflexão quando traz o conceito de hibridação cultural. Nosso antropólogo afirma que esse conceito define um conjunto de processos de trocas mesclando culturas, ou formas culturais, tanto a mestiçagem racial ou étnica, como o sincretismo religioso e outras maneiras de fusão cultural, como a musica. A hibridação não é um fenômeno novo, sempre que ocorre o contato entre culturas há empréstimos de elementos entre elas, há afetações entre elas, há alterações entre elas. Na contemporaneidade, a ampliação de possibilidades de viagens, de relações entre as culturas e as indústrias audiovisuais, os processos migratórios entre outros, incitam ampliação do acesso de umas culturas aos repertórios de outras. Essa relação não é harmônica, pacífica, apenas enriquecedora, é sim, bastante conflituosa. Hibridação é apenas uma das modalidades de interculturalidade, fenômeno mais interessante que a multiculturalidade. Enquanto na multiculturalidade pode parecer que as diferenças estão ali, estáticas apenas, no segundo há movimento, deslocamentos, empréstimos, recusas, ressignificações. Interculturalidade é um campo conflituoso e contestado.

Nesses cenários, estruturas e práticas que existiam isoladamente afetam-se a ponto de plasmarem novas estruturas, conceituais, materiais ou práticas. São combinações nem sempre previsíveis, capazes de nos deslocar de posturas umbigóides e de posições privilegiadas para ver os “outros”.

Aquele espaço se configurava em algo para além da churrascaria, onde se plasmava interculturalidade.

O Brasil é um grande palco para esse tipo de interculturalidade. A nossa Soterópolis, por suas condições históricas e significados que a fazem possuir notoriedade é uma grande arena desses embates, apesar de grupos segregadores tacitamente naturalizar a balela de “manto da democracia racial” que mais fortalece a permanência de um poder que se quer saneado de impurezas, sentido e vivenciado em suas esquinas.

A soterópolis é mestiça, é hibrida! Graças aos deuses e aos humanos que a significam e a ressignificam!

A propósito, foi um almoço saborosamente interessante!

Zelão
zelosmegatrend@uol.com.br

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Manifesto meu repúdio nauseado à bucéfala e obtusa, estudante de direito, Mayara Petruso e sua incitação à mediocridade preconceituosa!

Travadinhas existenciais como essa figura umbigóide, se tiverem uma diarréia precisam amarrar o pescoço para não murchar a cabeça!

zelosmegatrend@uol.com.br

domingo, 10 de outubro de 2010

9. FOTOCHAPAÇÃO: DITADURA DO PRESENTE FORJADO NAS IMAGENS DOS CANDIDATOS

Navegando pela teia da imagética, no fluxo da propaganda política que compõe circunstancial e agressivamente a paisagem da urbis, quero tratar da fotochapação saneadora das imagens dos candidatos e provocadora de nosso mal estar eleitoral.

Certa vez escrevi sobre os possíveis significados do festival dentifrício promovido pelos sorrisos dos candidatos aos poderes públicos numa dessas eleições. Continuo mobilizado por esses temas por serem pistas que podem nos revelar questões que estão para além da conquista de nossos votos e dos cargos pretendidos.

Muito mais do que centralidade no sorriso dos sorridentes, nesse último pleito, o cuidado e atenção com a jovialidade dos candidatos inquietou até mesmo os pouco ou nada críticos em relação ao processo. Constatamos mesmo o forjamento dessa jovialidade, não só nos mais abertos às tecnologias, mas também nos mais ortodoxos.

O Fotoshop e seus similares adquiriram status de grande poder nos partidos, ou melhor, nas produções de imagens, de significados das imagens dos candidatos. Poderíamos trazer, também, a utilização das ferramentas de comunicação na rede como poderosos instrumentos que adquiriram status elevado em suas estratégias. Mas não é o caso aqui. Quero tratar do forjamento imagético como estratégia visual direta dos candidatos e suas delegações, produzindo significados no cotidiano.

Nos meios onde interajo - escolas, universidade, condomínio, rede, entre outros - percebi muita ironia nas referências aos baners, cartazes, panfletos, outdoors que traziam as imagens dos concorrentes ao pleito. Figuras dinossáuricas da política local e federal foram veiculadas através de imagens que lhes retiraram as impurezas do implacável tempo.

Meu filho de 13 anos, ao visualizar um desses baners no trajeto do colégio para casa exclamou irônico: ...mas, papai.. tá na cara que isso é fotoshop! Será que ninguém percebe? Eu argumentei que ouvi dias antes, um cidadão ironizar num programa de rádio que se temos leis contra falsa identidade e idoneidade nas relações trabalhistas e sociais, deveríamos ter, também, uma lei contra a falsificação de imagem dos políticos em suas propagandas eleitorais, tamanha a mentira visual que estava em exibição na cidade!

O que essas estratégias podem significar?

Sem fazer patrulha contra as “repaginações”, “recauchutagens” ou outros mecanismos de controle “anti-idade”, como são denominados produtos que prometem, ou melhor, assumem tal compromisso com o consumidor, quero refletir sobre as pretensões desses atores ou artistas ao se venderem nesse formato à sociedade e, também, o que essas ações podem estar querendo nos dizer.

Muito mais do que repaginação da aparência para ficar bem na foto, isso pode revelar aspectos dessa crise de percepção de sentidos que nos toma na atualidade. A ditadura da eterna juventude está instaurada, nos interpelando para romper com lastros de passado, com qualquer sinalizador de nossa historicidade, de nosso tempo vivido, daquilo que temos sido, sendo-no-mundo. A hiper-presentificação se configura num totalitarismo que subjuga quem traz consigo marcas, manchas, arranhões do tempo vivido. Há uma política de saneamento histórico que não admite impurezas, nem no “histórico imaginário”, nem no histórico imagético impresso nos caminhos diversos de nossos olhares. A Fotochapação explode ambivalências: dá conta, de certa forma, desse saneamento visual, ao mesmo tempo em que nos “chapa” pelas vertigens causadas por tais estratégias como “verdades políticas de campanhas políticas”. Como é que esses candidatos administram esse forjamento impresso nas propagandas e nas mentes, quando estão interagindo corpo-a-corpo com os eleitores (ou não-eleitores)? Nessas ocasiões esse presente sem impurezas deixa de existir. A fotochapação se liquefaz revelando outro presente, repleto de impurezas, manchado, disforme, assimétrico e provavelmente, vertiginoso.

Será que a Fotochapação provoca novas identidades? Será que ela configura uns “outros” deles mesmos? Será que nos tornamos suscetíveis a essas estratégias de “verdades políticas de campanhas políticas”? Será que a Fotochapação consegue zerar a historicidade apagando impurezas dessas caras-de-pau?

...E eu que ficava incomodado em passar uma tinturazinha nos grisalhos de meu cavanhaque!

ZELÃO zelosmegatrend@uol.com.br @zelostn (tweeter)

O TEMA NA REDE
http://ccsp.com.br/ultimas/noticia.php?id=44828
http://www.adnews.com.br/publicidade/101121.html
http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/eleitos-pelo-photoshop
http://wwo.uai.com.br/UAI/html/sessao_20/2008/08/03/em_noticia_interna,id_sessao=20&id_noticia=74159/em_noticia_interna.shtml http://www.caspervox.net/2009/09/despois-da-web-photoshop-na-mira-de.html

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

8. MANIFESTO AOS CÃES!

TRAFEGANDO PELA URBIS, ATRAVÉS DAS CALÇADAS, PRAÇAS E PRAIAS CAGADAS E OCUPADAS PELOS CÃES, NO FLUXO DA DESCIVILIZAÇÃO DE SEUS DONOS, LANÇO AQUI UM MANIFESTO/PROTESTO PARA DISCUTIR ESSA ACEFALIA SOCIAL:

MANIFESTO AOS CÃES!

A todos os cães e outros animais esclarecidos da sociedade brasileira:

Já que seus donos

1. resistem em reconhecer que nem todos os cidadãos têm cães e que não são obrigados a conviver com vocês, ainda, que isso não signifique desgostar de cães e de animais, em geral;

2. insistem em desrespeitar os espaços públicos e coletivos, transitando com vocês, próximos, muito próximos, muitas vezes sobre pessoas, indiscriminadamente – adultos e crianças, sendo que muitos têm medo e até pavor dessa proximidade por razões variadas;

3. necessitam exibi-los e apavorarem qualquer postura zen, em razão do porte, temperamento e comportamento de vocês, que se apresentam, muitas vezes, enormes, agressivos e inquietos, características aguçadas pela proximidade com a multidão que os cerca;

4. sentem-se realizados em levá-los às famosas “voltinhas” , visando ao desestresse de vocês que, mal orientados, induzidos e manipulados, por eles, é claro, cagam deliberadamente no passeio público, nas portarias de edifícios, casas e comércio, sem o menor prurido ou preocupação com o próximo, fato agravado pelo exalar de odores fétidos e as armadilhas fecais desagradáveis aos nossos pés/calçados ;

5. persistem em afirmar coisas do tipo: “não morde, não, é uma moça (que machismo!), adora criança, só tem tamanho, só se torna agressivo se for provocado, só pula se você correr”, e toda semana ocorrerem acidentes graves e até fatais que desmentem todo esse imaginário sobre vocês, sem que haja medidas punitivas a esses anti-cidadãos;

6. saberem que existe uma legislação que regulamenta o porte de animais em áreas urbanas, públicas e coletivas e a proteção contra doenças graves que podem acometer os desavisados e avisados e, ainda assim, ignorá-las:


a- contamos com sua capacidade de adestramento para instruí-los sobre noções de convivência cidadã, e alertá-los sobre os desdobramentos desse desrespeito deliberado.
b- esperamos que seu instinto canino inteligente seja um instrumento para conscientização de seus donos, sobre os problemas provenientes desse tipo de anti-cidadania.
c- almejamos que consigam o adestramento deles, seus donos, para comportarem-se respeitosamente ante a convivência social, já que, diante do que vemos, o educar para a conscientização não os está mobilizando.

Por fim, sabemos que vocês só protagonizam esses episódios cotidianos por imposição deles, e que esse comportamento é tipicamente humano e expressa um alto grau de acefalia social.

Diante de tudo isso, então, reflitamos sobre os significados de algumas atitudes homo cane:

- Qual o significado de um sujeito portar um cão enorme e robusto, que mal consegue segurar e controlar, numa praia cheia de crianças e adultos ou num calçadão para caminhadas? Seria puro exibicionismo ou necessidade do animal? Seria halterofilismo em movimento ou instinto desagregador de multidões?


- Nos casos apontados, quem seria mais irracional, aquele que está embaixo ou aquele que está em cima da correia?

- Quem estaria levando quem, aquele que segura a correia ou aquele que tem a coleira no pescoço? Quem deveria estar portando a coleira?

- Deixar o animal cagar nas calçadas, praças e em outros locais de circulação pública e não limpar é desdém com o mundo, estado de sem-noção-avançado, ou caguei-pra-você mesmo e pronto! ou, ainda, meu-cão-cagou-por-mim-pra-você e pronto!?

- Possuir um cão nessa apelação consumista urbana seria amor aos animais ou mais um produto, um sonho de consumo da marca, ôpa, quer dizer, da raça tal?


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Pra não dizer que não falei das flores

Durante minha infância e adolescência tive muitos cães. Entre eles, Fly, a mais nova. Pois tinha havido uma Fly mais velha. Uma cadela que mostrava os dentes como se estivesse sorrindo quando “manifestava alegria” ao encontrar aqueles que eram próximos dela. Além disso, quando se aproximavam os momentos de parir ficava inquieta, ganindo para que eu acompanhasse o nascimento dos filhotes. Apesar de ser uma relação muito amorosa e carinhosa, creio não ter desrespeitado a convivência, o coletivo, através de atitudes acéfalas, anti-cidadãs, ameaçando a integridade física da comunidade ou tentar humanizar a cachorrada. Eles são bichos. Podemos amar os bichos como bichos, do contrário, querer tratá-los como humanos me parece atitude esquizóide, infantilóide e humanocêntrica.

Muitos de nós, professoras e professores, proprietários de cães, refletimos sobre esse tema? Estamos provocando nossos alunos para essas questões? Esse tema pode gerar novos temas sobre cidadania, convivência, respeito, coletividade, dentre outros? Temos discutido ou ao menos refletido sobre atitudes pela sustentabilidade? Estamos afins desse tipo de discussão, desse movimento de lançar olhares críticos para nossos dilemas cotidianos e nos projetarmos para além de nossos imaculados e ilibados conteúdos que indicamos em nossos programas?


Au au au rrrrrrr, au au auuuuu au au auauuuu, au!*

*respeito e esperança para transformarmos a vida em curso, já!

O TEMA NA REDE:


http://http//extra.globo.com/blogs/paoduro/default.asp?a=181&periodo=200801


http://http://www.guiadorosa.com.br/impressao.php?area=conteudo&id=


http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://bp2.blogger.com/_gWqerMk_ui0/RdIyq15jKZI/AAAAAAAAAE8/EVTnFQr1o9o/s320/cao%2Bna%2Bpraia.jpg&imgrefurl=http://www.maedecachorro.com.br/2007/02/poluio-nas-praias-de-floripa-agora.html&usg=__ID4pmpyqnQ_kqPDJ5T1EMIqOECk=&h=240&w=320&sz=16&hl=pt-BR&start=11&tbnid=jrSBJ76-ljUmGM:&tbnh=89&tbnw=118&prev=/images%3Fq%3Dc%25C3%25A3es%2Bna%2Bpraia%26gbv%3D2%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DG


http://http://vejabrasil.abril.com.br/ehoje/Image/rio-de-janeiro/300408/civilidade4.jpg


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ZELÃO - zelosmegatrend@uol.com.br

sábado, 15 de novembro de 2008

terça-feira, 18 de setembro de 2007

6. VOTAÇÃO SECRETA, INTENÇÕES DECLARADAS E CONLUIOS EXPLÍCITOS

TRAFEGANDO PELA MOVIMENTAÇÃO POLÍTICA NACIONAL, NO FLUXO DAS TENTATIVAS DE TORNÁ-LA QUESTÕES CONDOMINIAIS, tensiono o escárnio a que estamos submetidos no reino brazuca das iniquidades.

Penso que a lógica do paradoxo pode ser um transporte provocador para essa reflexão, intencionando aguçar desejos e mobilizações para projetos que nos torne nação, superando a condição primal de letargia política e acefalia social que submerge o país numa fossa profunda.

Assumidamente, venho aqui em tom de desabafo.

Peço desculpas pela forma generalista como tratarei da questão, não reconhecendo as exceções. Infelizmente, elas estão amorfas e inertes nesse momento. A canalhice parece engolir as reservas morais em Brasília.

O caso, ou melhor, o “descaso” Renan Calheiros e Senadores da República Federal destruiu mais pilares de sustentação do crédito e confiança que depositamos nas instituições públicas brasileiras. Não estou propondo seu fim. Não acredito em país sem elas. Estou conclamando pela desmobilização da corja atroz autocentrada, infelizmente predominante nessas instâncias, desdenhadoras da perspectiva do coletivo, de projetos de nação.

Temos provocado essa reflexão em nossas aulas, em nossos intervalos, em nossas interações cotidianas? Ou temos apenas argumentado “e poderíamos esperar outra coisa...será que alguém acreditava que seria diferente?”

Sufocado pela desesperança e pela petrificação que essa postura tem provocado mobilizei-me e desloquei-me em atitudes para desnaturalizações dessa condição.

A votação secreta promovida pela corte que se apropriou da instituição mais importante da República, na quarta, 12 de setembro, revelou interesses oblíquos às demandas da coletividade, bem como consolidou a visão torpe dessa casta em relação à democracia e à legislação para o social e projeto político de país e nação. Sem reservas, afirmo que revelou também, o projeto que estamos fazendo de nós mesmos quando elegemos escroques dessa laia para legislar em nosso nome.

Defecando sobre nossas cabeças, entubando-nos com instrumentos autoritários e invazivos, destilaram seus interesses corporativos sem qualquer pudor, com todo o descaramento inerente aos políticos profissionais, próceres do processo de despolitização e descaso com as questões éticas que entranham essa espécie de massa acéfala que parecemos nos tornar.

Como se estivessem decidindo os caminhos de suas agremiações ou condomínios ignoraram a população, a imprensa e a imagem do país, agredindo-nos com sua empáfia demonstrando a fragilidade das instituições públicas típicas dos países latino-americanos e de seu processo democrático, por um lado, e o controle e articulação do autoritarismo capilar e bem engendrado do poder corrupto nesse mesmo território do planeta, por outro.

A votação top secret dos top senadors escondeu na sombra da abstinência os articuladores estrategistas representantes do planalto que tentaram, a qualquer custo, conluios para assegurar as bases para aprovações de seus projetos, sem que a opinião pública pudesse execrá-los. E não me venha essa oposição dos DEMistas e PSDBistas, sabidamente representante das elites que corroboram as iniquidades históricas brasileiras, demonstrar sua indignação com a permanência do escroque Calheiros na presidência do Senado Federal. Seu projeto de emperrar votações já existia antes dessa falcatrua. Infelizmente, estão tripudiando em razão da sede pelo poder que desdobrou nessas articulações do Itamaraty. Não nos enganemos. É uma oposição distante também, da perspectiva coletiva e de supressão das injustiças sociais e de oportunidades para todos.

Num primeiro momento, quando a votação foi aberta, a maioria senatorial decidiu pelo encaminhamento da cassação do agraciado Calheiros, numa ejaculação demagógica viril. Após e decisão pelo voto secreto, as articulações soturnas e nem tão soturnas assim, afloraram como plantas carnívoras, ávidas do banquete que deglutiria a ética, a democracia e o respeito. Mantiveram o calhorda Calheiros na presidência da casa, desconsiderando sua atuação corrupta a frente da instituição.
Corporativismo, rabos-presos, fisiologismo, submissão ou conluio explícito?

A ação escusa e nebulosa da canalhada supranacional, mais uma vez desconsiderou os princípios da convivência coletiva, da governabilidade e da esperança e confiança do país naqueles que o governam, bem como paralisou em 130 dias as decisões e encaminhamentos do Senado, como se a historia tivesse parado em decorrência da corrupção.

Sinto vergonha de apoiá-los comigo mesmo, com meus filhos (ainda crianças, porém partícipes das questões nacionais, a seu modo), com meus alunos cotidianamente, discutindo e defendendo a necessidade da manutenção desses organismos para a democracia.

Não quero fazer aqui apelos sentimentalistas. Essa crítica é desesperança mesmo! É angústia profunda! É vontade de abandonar o país e ir não sei pra onde! É a insustentável agudeza do estado de “sem saída”!

Entretanto é um desabafo necessário para que eu, ao fazê-lo, a despeito de vocês corruptos de atitudes cidadãs torpes, ressignifique tal desesperança para resistir e me mobilizar novamente, alimentando meus filhos e alunos com coragem para resistirem e revolucionarem seus cotidianos explodindo um país, uma nação na justiça e no comprometimento com o outro e com a coletividade.


O voto secreto e a manutenção do biltre Renan Calheiros consolidaram a necessidade de incluirmos Vossas Senhorias no rol dos safardanas que assolam nossas esperanças em uma nova política pela formação de indivíduos na coletividade na diversidade, na ética, na solidariedade e respeito.


Os nobres senadores comprovaram serem séquito de bucéfalos do anti-social Calheiros, umbigóides, daninhos e infelizmente, políticos do legislativo federal, estereótipos de tudo aquilo que execro como cidadãos, como parlamentares de um país como o nosso tão carente de dignidade.

Ou efetivamos projetos em lógicas de racionalidades coletivas, ou nossa saída não será a rodoviária ou o aeroporto. Será a latrina!


Vida curta a seus conluios, caras de pau! Voto aberto para conduzirem o país! Renúncia, já presidente do Senado!


Endereço eletrônico do Senado Federal, onde é possível encontrar endereços eletrônicos dos Nobres Senadores:

www.senado.gov.br

Lotemos suas caixas de e-mais!

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

5. TAMtas EXPLOSÕES

VAGANDO PELA FUMAÇA DA TRAGÉDIA DA TAM EM CONGONHAS, NO FLUXO DO DESESPERO, vi que além da aeronave lotada e do prédio da empresa, movimentado pelo fim do expediente na terça, 17 de julho de 2007, explodiram, também, tensões intercruzadas, como desdobramentos de grandes insatisfações em diferentes âmbitos do cotidiano dos brasileiros.

A explosão material provocou afetações profundas abortando brutalmente vidas de pessoas comuns, deixando a deriva, no grito calado da dor do ceifamento existencial, suas famílias e amigos, deflagrando/consolidando o aparthaid ético de perspectiva coletiva, instituído por essa quase casta de políticos e seus asseclas que imprimem uma quase desesperança aos acomodados por conveniência ou não, quase cidadãos.

A violência do baque foi incomensurável, a porrada foi avassaladora, transbordando novamente o líquido turvo da crise aérea brasileira.

O start da crise no céu da floresta amazônica, há 10 meses, apesar de ter sido transformado em artefato cultural midiático para consumo, com reportagens especiais e investigações com vozes e imagens alteradas num Fantástico aqui, num Jornal Nacional ali, pareceu despertar as comunidades brasileiras para a dimensão do problema, sem, entretanto, grandes mobilizações.

Para nossa condição de seres iconofílicos e iconofágicos, possivelmente o acidente entre o Boeing da GOL e o jato Legacy não tenha provocado forte espetacularização, em razão das imagens só mostrarem os destroços da aeronave na pequena clareira da Floresta Amazônica.

O acidente da TAM, ocorrido no pulsar urbano, na avenida Washigton Luís, setor Congonhas, na maior cidade do país, além de passageiros e tripulação envolveu atores que não estavam ligados diretamente ao vôo 3054 que seguiam interagindo com o fluxo da cidade. E quase foi filmado acontecendo: inseriu-se no universo imagético, explodido, incandescendo, ardendo corações, mentes e imaginários, como também, através da imagem borrada da aterrisagem descontrolada na pista do aeroporto, seguida do clarão da explosão.

O que o estabilizador com o nome TAM, iluminado pelas labaredas daquele incêndio soturno pode significar aos colecionadores e devoradores de imagens? Para mim e alguns próximos uma rede desalentadora de significados se configurou.

De imediato fui arremetido para o espaço da tal crise aérea brasileira; tomado por medo e revolta retomei a incrível capacidade de desrespeito humano e a cidadania desenvolvida pela tríade AERONÀUTICA-INFRAERO-ANAC: insegurança com a infra-estrutura dos aeroportos, pistas, equipamentos e controladores, incompetência gestora nas faltas de planejamento e investimentos, inoperância na regulação do mercado de passagens aéreas e com as insatisfações dos consumidores; e pelo descaso com a manutenção das aeronaves e a tara das empresas aéreas pelos desejos e necessidades de voadores/consumidores, potenciais vítimas logo de partida.

Ao mesmo tempo, como cidadão engajado, questionava a ausência do governo, desdenhador já a muito, dos problemas conjunturais: pensei no lulismo que se configura no país, na engenharia de marketing que autoriza ou não o aparecimento do presidente e seus propostos a consultarem o Arquivo Oficial de Textos e Pronunciamentos Medíocres para Tragédias Nacionais e declinarem sua verborréia genérica protocolar melodramática. Potencializei minha crítica à inoperância dos gestores governamentais e da ausência de planejamento na complexidade e em seus depoimentos antipáticos e bombásticos: que prosperidade geraria acidentes pela incompetência de gestores controladores e obsolescência tecnológica, ministro Mântega? Que gozo mórbido e sadomazoquista, ministra Marta Suplicy!

Pensei, também, no apoio conveniente da Presidência da República às lideranças políticas cínicas no Itamaraty e no Congresso Nacional e na sua perda de status midiático nesses tempos de recesso do Congresso e comoção nacional com o acidente aéreo. Vários boeings-da-tam explodindo nos centros urbanos, nas periferias e no campo enquanto Renan Calheiros, nem que a vaca tussa desabunda da poltrona da presidência do Senado.

Outra conexão dessa rede desalentadora é a explosão abafada dos desdobramentos das ações dos grupelhos de “branquinhos da classe média”, acéfalos sociais, que vem apavorando com sua crueldade a hipocrisia vigorante que acredita nas ocorrências de ações violentas apenas nas periferias dos centros urbanos, onde vivem “neguinhos brau”, os “outros sociais” que estão à solta, do lado de fora das grades, portarias e câmaras dos condomínios.

A explosão do Airbus 3054 da TAM ressoa agudamente na vida dos viventes desdobrando inúmeras outras explosões de desrespeito e insatisfações país afora.

Como é que estamos tratando dessas explosões em nossas salas de aula? Ou não estamos? Deixaremos por conta da mídia? Será que precisamos dar aulas sobre o acidente? Nesse caso, penso que a mídia o faria muito melhor do que nós, professores e educadores.

Creio que devamos tratar dessas explosões mobilizando as comunidades escolares, a sociedade para criar possibilidades de convivência num país com políticas públicas, cidadãos e políticos implicados em éticas pela coletividade. Esse acidente nos revela o quão vulneráveis estamos diante de um Estado inoperante, conivente com ingerências e desrespeitos constantes.

Apesar da tristeza e da depressão, presenciei ações concretas de colegas educadores explodindo esses temas em salas de aula, mobilizando seus alunos com criticidade para atitudes transformadoras. Também mobilizei meus alunos nesse sentido. Foram tocantes os relatos de Niêta e Mirian, companheiras de educação, quando explodiram o tema em suas aulas naqueles dias, tornando-os conteúdos refletidos e discutidos, desdobrando pontes e possibilidades de análise de questões que nos inquietam como seres humanos e cidadãos. Presenciei e interagi com seus e meus alunos que, mobilizados por discussões sobre a crise área como expressão da incrível capacidade de desrespeito ao ser humano e à cidadania instituída nesse país, propunham projetos, redigiam textos, discutiam estratégias e ferramentas para ações sociais naquela perspectiva.

Essas ações instituintes de educadores e alunos são explosões de possibilidades de reações coletivas às mazelas desse país tão diverso que nos solapam as esperanças. São atos de currículo poderosos, implicados num movimento crítico, de mobilização coletiva pela cidadania e pelo bem comum.

Encerro este percurso, juntando-me ao grande número de insatisfeitos, indignados e mobilizados contra esse contexto de não-gestões, externando meu mais potente repúdio ao Itamarati, ao Congresso Nacional, aos inoperantes Aeronáutica-Infraero-Anac e às empresas aéreas, ao mesmo tempo em que declaro minhas mais profundas condolências às famílias das vítimas desse acidente atroz.

domingo, 8 de abril de 2007

4. ARTE DOS CARAS: CONTROLE, CONSUMO E OSTENTAÇÃO

VAGANDO PELO COTIDIANO, NO FLUXO DAS INFORMAÇÕES INSTITUÍDAS, inquietei-me com uma questão intrigante sobre arte: seu consumo controlado por agências de mercado, em função de seu valor adquirido em leilões.

No último mês a campanha da revista Caras trazia um texto mais ou menos assim: adquira réplicas das obras mais valiosas do mundo!(versão impressa); Tenha em sua casa obras de arte que foram adquiridas por zilhões de dólares em leilões do mundo!(versão para TV). O que os Caras querem que façamos veiculando esse tipo de texto? O que podemos discutir sobre afetação de subjetividades e modos de endereçamento ao consumirmos passivamente tal referência?

Desvelamentos são necessários para essas reflexões. Esse semanário de grande circulação nacional trata/forja o cotidiano, a intimidade, a vida daqueles que têm sido considerados celebridades - a propósito, quem define isso, o povo, os expectadores, os consumidores, os produtores ou os marketeiros? O discurso produzido por seus textos, principalmente os imagéticos (mesmo por que os escritos são muito mais verbetes e legendas que reforçam as imagens) define de forma deliberada o que deve ser consumido como in/out. Alimenta o paradigma da mutação em curso dos cidadãos para consumidores: eu sou aquilo que tenho, e o que tenho deve ser publicizado, midiatizado. A Ilha dos Caras simboliza o insulamento do consumidor/possuidor/pretensioso do mar social, daquilo que poderia ser um oceano de mobilizações para a coletividade. É a prática do celebridismo que temos alimentado e que tem nos consumido cotidianamente.

Dessa forma, uma campanha para divulgar a promoção da revista, presenteando os leitores/consumidores com os encartes contendo réplicas das obras dos “grandes mestres” da pintura mundial, não poderia ser veiculada de outra maneira. Arte aqui não é apresentada para provocar, para emocionar, para questionar, inquietar, discordar, para ser admirada, para se tratar do belo, da estética ou, simplesmente, para apreciação. A arte é trazida aqui como um artefato cultural para ser consumido. Possuir réplicas de um Klint, um Picasso, um Van Gogh, que foram arrematados por zilhões de dólares ou euros é representação dessa cultura consumista, definida pelas agências de mercado. É a fantasia de ser pertencente a um seleto grupo de possuidores. É permitir-se ser educado para o consumo controlado e definido por grupos de marketing. Até a forma de referência as obras, atribuindo o nome do autor a elas, “um Klint”, “um Van Gogh”, “um Picasso”, é atribuição de identidade de consumo, eles adquirem status de grife. Creio que boa parte desses consumidores exibirá suas réplicas como artefatos de valor comercial, como uma “das pinturas mais VALIOSAS do mundo”, simbolizando posse e mais fantasias de riqueza, e de poder. Adquirir uma réplica dessas obras via essa veiculação de Caras, mais do que apreciação da arte, mais do que interação com a criação, a estética, é ostentação de consumo – eu consumo esse artefato por ser uma réplica de “um fulano” que custou zilhões em um leilão de algum lugar e, principalmente, por ter sido um presente dos Caras. É ostentação de consumo daquilo que os Caras definiram como in, up, chiquerésimo, bacanérrimo nesse universo simbólico de consumo. Os Caras pesquisam, analisam e conhecem quem consome esse tipo de produto.

Nada contra o orçamento de obras de arte. Quero refletir sobre o consumo da arte pelo seu valor de mercado imposto por semanários que estandartizam a cultura do “sou aquilo tenho”, controlando o que é certo/errado, in/out, chiquerésimo/cafonérrimo no cotidiano.

Adquirir réplicas dos “grandes mestres” e conhecer suas histórias pode vir a ser um investimento interessante, inclusive via Caras. Desde que a aquisição seja consciente e decidida pelo adquirente, apreciador e até mesmo consumidor ou investidor. E não determinada pelas agências controladoras e geradoras de identidades para consumo.

Se não proporcionarmos reflexões sobre essas questões, sobre como elas vem delineando os currículos culturais, permaneceremos distantes estratosfericamente dos cotidianos de nossos alunos, vagando como um meteoro que bate cabeça com as muralhas que encastelam os conteúdos específicos das disciplinas.

domingo, 18 de março de 2007

3. A ICONOFILIA DOS GLOBALIZADOS NA MODERNIDADE TARDIA

Este texto foi originalmente publicado no Soterópolis – o jornal de cultura da Bahia, nº. 45, jun – 2002, e utilizado pela amiga, profa. Madalena, numa de suas brilhantes avaliações de Língua Portuguesa (que me deixou muito honrado), em um dos colégios onde atua.
Esta versão está revista e atualizada para o TEIA.

VAGANDO PELOS FRAMES, NO FLUXO DE SUAS IMAGENS, proponho que imaginemos o coringa e seus malabares para analisarmos um recorte da modernidade tardia. Somos nós os malabares ou o coringa dessa história? Se malabares, até que ponto deixamos que nos impulsionem ou, até que ponto nos permitimos ser moldados na madeira, pinos alegóricos que servirão aos espetáculos da vida? A quais espetáculos servimos? Se coringas, que habilidades estamos utilizando para o show cotidiano com os pinos voadores? Que tipo de show queremos apresentar? Somos protagonistas ou coadjuvantes?

Não teorizo sobre o que somos. Creio que ora estamos malabares e ora estamos coringa. E nesse momento, quero refletir criticamente sobre o nosso estar malabar.

A modernidade tardia nos lança como malabares no espaço cotidiano que se desvenda desigual, amorfo, e desequilibrante a cada pirueta impulsionada. Não pretendo execrá-la ou enaltecê-la. Quero tensioná-la.
Como interagir com tantas tendências, tantas mudanças, tantos “novos paradigmas” para entender o que está se passando nos mais variados âmbitos do viver? Como lidar com a questão da formação nesse cosmo de informação? Será que assimilamos tudo que é veiculado pelas fontes – família, escola, rua, autodidatismo, mídia? Como acompanhar a velocidade da informação? Será que é preciso assimilar todas as informações produzidas por essas fontes? Somos seletivos, assimiladores ou um poço sem fundo, depósito de informação? E a criticidade tem sido mobilizada para interagir com essa dessubstanciação que rompe com as experiências de temporalidade, com o agigantamento do presente?

Dentre essas matrizes, as questões midiáticas tem afetado sobremaneira as subjetividades e o comportamento do cidadão na modernidade tardia. Logo, quando se trata de formação, surge a inquietação: como lidar com os valores (ou a ausência deles) propagados pela mídia se meus valores são tão diferentes? Será que são tão diferentes mesmo? Será que estamos centrados apenas em nossos valores e não queremos reconhecer outros, diferentes e novos valores e interagir criticamente com eles? Até que ponto corroboramos com os valores midiáticos e autorizamos sua propagação? Será que a mídia é mesmo nociva ao comportamento? E se déssemos outro tratamento ao seu conteúdo, será que seria diferente?
Esses questionamentos expressam a insegurança e a incerteza que intercruzam nossas perspectivas momentâneas ou de futuro mais distante.

A comunicação de massa exigiu agilidade na transmissão da informação, promovendo consumismo em escala planetária, não apenas de bens de consumo mas, também, de valores, conceitos e comportamentos. A massificação da comunicação promoveu a reconstrução de conceitos, destruiu modelos, enterrou, transformou e criou valores embriagando-nos de efemeridade – “nada mais antigo do que ontem !”

Na profusão contestadora, ideológica e política da década de sessenta, entre tantas outras, encontramos duas referências sobre essa questão.

Na Arte e na Comunicação vimos a propagação de idéias que ganharam vigorosas proporções soando quase como profecias: Andy Wahrol, na vanguarda da pop arte, vislumbrou que “no futuro todos terão seus 15 minutos de fama”. Marshall MacLuhan, o visionário da comunicação, definia o conceito das redes de comunicação que chamou de “aldeia global”.

À luz desses referenciais, podemos refletir sobre as questões midiáticas na atualidade – o que não diminui nossas inquietações e angústias sobre elas.

Concretamente vivenciamos hoje as “profecias” dos dois vanguardistas do passado, apesar da aldeia global de MacLuhan não ter se consolidado totalmente como apontou. Direcionemos nossa visão àquilo que definimos como realidade para que as constatações nos desequilibrem.

Os 15 minutos de Wahrol foram ampliados para 60, 70 dias de fama nos reality shows, que se servem da aldeia global de McLuhan para que os espectadores possam participar, interagir e, pasmemos(!), decidir os rumos dos “novos famosos”. Que democracia, que senso de cidadania!!! As Pegadinhas de Faustão, Gugu, os antigos programas de Ratinho e de Márcia, por exemplo, transformam tragédias e constrangimentos em 10 ou 15 minutos de fama, transmitindo para todo o Brasil, a espontaneidade ensaiada dos protagonistas das histórias neles exibidas. Os programas desse gênero têm na comunicação em rede o grande canal para a participação dos espectadores incautos (e questiono, será que são inacutos mesmo ou se deixaram forjar nessa oficina global de desgentificação, cooptadora de pensantes?) que, sedentos de democracia, crêem estar exercendo-a.


Salve o culto às celebridades fugazes e à mediocridade em rede, em aldeia global!

As imagens dessas matrizes dão novos significados à idealização de felicidade, conquista pessoal, inteligência, sucesso, dignidade, solidariedade, passividade, perseverança, heroísmo - como quer Bial, o paraninfo dos heróis-broderes, etc.

O universo imagético ganha a dimensão do viver, pois “viver é simbolizar”. Eis aí a grande referência com a qual devemos interagir nesse contexto de transformações que nos inquieta. A vida é o palco da simbolização que adquire hoje, com as questões midiáticas, maiores proporções. Nosso consumo de imagem é infinitamente maior do que nos momentos históricos anteriores. Arrisco afirmar que é maior do que durante a Guerra Fria, quando a bipolarização ideológica construía símbolos, imagens, mitos que serviam às ideologias que se contrapunham. Nesse contexto de virada de milênio, assistimos o desenvolvimento tecnológico tentando sobrepor-se às Ideologias. Apesar do Echelon – sistema norte-americano de rastreamento de sinais telefônicos e e-mails “para combater o mal” - há possibilidade de comunicação entre seres de qualquer parte do planeta, independente da ideologia que possuem (se é que ainda possuem). Mike dos EUA pode se corresponder com o Yuri da Rússia; Shin Linn da China pode se corresponder com Antônio do Brasil, independente de suas ideologias. Se todos eles forem adolescentes estarão usando o mesmo tipo de indumentária de suas respectivas tribos nesses diferentes recônditos da terra; estarão, seguramente, assistindo MTV e assumindo “atitudes” muito similares, apesar de suas origens distintas e da utilização dos localismos como estratégia da globalizadora. A cultura de consumo, predadora e conversora de cidadão em consumidor inverteu a lógica da produção apontada por Marx. Nesses tempos de modernidade tardia, como alerta Jameson, ela é definidora da produção.
O universo midiático está a serviço da ideologia do capital, do consumo, do “ter” para ser feliz e tornar felizes as grandes marcas que dominam os mercados globalizados, inclusive as marcas de grupos de comunicação. Renato Janine Ribeiro, pensador brasileiro contemporâneo, afirma que no terceiro milênio a noção de cidadania que se terá em países como o Brasil (e já se tem) será “poder consumir”; se eu consumo eu pratico a cidadania; se eu possuo, eu tenho direitos adquiridos. Do contrário terei de subtrair de quem tem para ser cidadão.

Ainda como contribuição a essa reflexão faço referência a outro pensador da contemporaneidade, Foulcault, para refletirmos sobre as fontes de poder opressor e controlador. Diferente das bandeiras da esquerda marxista que apontavam essa fonte somente no Estado burguês, Capitalista – e que portanto, deveria ser derrubado - Foulcault argumenta sobre a dificuldade de se identificar essa fonte, já que ela não é única. A "microfísica do poder" está em todas as formas de relacionamento social: Estado/povo, brancos/negros, brancos/indígenas, pais/filhos, homem/mulher, marido/mulher, professor/aluno, diretor/funcionário, namorado/namorada, amigo/amigo, etc). Nas sociedades do liberalismo exacerbado é mais difícil, ainda, identificá-las. As facilidades de compra, de acesso a gastos, de “serviços”, de participação em programas de TV e Rádio, enfim, essa pseudo democracia interativa, criam uma névoa que desfoca tal identificação. Os focos do poder controlador estão dissipados na aldeia global (mas, quem controla a aldeia global?) impedindo a nós, seres globalizados, de interagir criticamente com essa rede.

Portanto voyeristas, quando, através do buraco da fechadura de nossa TV, inebriados pela sensação de estar ali, na intimidade dos “novos famosos”, atentemos para o fato de que também estamos sendo “filmados”, captados e observados pelos detentores de audiência, pelos opressores e manipuladores do comportamento, desfocados de nossa visão, muitas vezes obtusa, da realidade.

Somos seres iconofílicos, isto é, cultuadores de imagens. Mais ainda, somos seres iconofágicos, devoradores de imagens. Vejamos: quanta audiência para o Cidade Alerta e para o Linha Direta (este, reconstrói a história do crime como as cenas de uma novela que ainda vai acabar bem, encontrando os culpados, prestando um grande serviço à comunidade!) Lembra-nos o antropólogo Albergaria: quantas vezes vimos e revimos os aviões entrarem nas torres do WTC? A cada novo ângulo, largávamos tudo o que estávamos fazendo para não perdê-lo! Por que não transmitiram na mesma proporção as imagens do Pentágono? Elas eram bem pouco espetaculares, não possuíam a dramaticidade dos aviões explodindo as torres gêmeas em Nova Iorque. A audiência, nesse último caso, diminuiria.

Por fim, respondendo a inquietação inicial, afirmo que os coringas que nos lançam como malabares são os poderes que nos submetem não só através da "...coerção material, mas principalmente da dominação simbólica..." com forte influência da imagem, gerando novas necessidades e esculpindo os sentimentos e os desejos. A Imagem é incorporada cada vez mais ao uso cotidiano do pensamento. Nos tornamos a "Civilização da Imagem".

E então, como temos tratado destas questões com nossos alunos? Elas são relevantes como conteúdos transversalizadores? Temos refletido criticamente sobre as tensões cidadão/consumidor que nos afetam cotidianamente? Estamos interagindo com criticidade no universo imagético que tenta sobrepor-se ao intercruzamento de nossas vidas?

Nossa garimpagem deve ser incessante pela transformação do ensino enfadonho dos conteúdos em sala de aula.

Menos palestras, mais provocações e discussões!

No aguardo das interações!

segunda-feira, 12 de março de 2007

2. INCANDESCÊNCIA E RESFRIAMENTO

VAGANDO PELA URBIS, NO FLUXO DE SUAS ARTÉRIAS interagimos com poderosos currículos que estão nos afirmando comportamentos, atitudes e consumismo cultural.

A criticidade deve nos mobilizar para analisá-los e debatê-los, tentando garantir atitude pela liberdade e autonomia cidadã. Penso que tais questões devam ser garimpadas no cotidiano para serem lapidadas nos conteúdos, dando significação àquilo que tentamos promover em sala de aula.

Estamos todos em estado de aprendência. Os currículos culturais intercruzam nossos cotidianos enquanto estamos cidadãos, pais, mães, professoras, alunos e alunas, profissionais, filhas e filhos, dentro e fora da escola.

Vejamos a proposta de análise que desejo partilhar nesse espaço.

Enquanto abastecia o carro em um posto, na quinta-feira (aqui em Salvador) de carnaval, postura de observador malemolente, como quem deixa a cabeça recostar-se no apoio-de-cabeça, sem compromisso com o estado de vigília de minutos atrás, mas sem esmorecer ao interfluxo dos significados e significantes da paisagem,
surpreendi-me com imagens de consumo intercruzando esse espaço de significações.

Numa mesma parede do posto, disputavam a atitude consumista dos incautos motoristas ou, simplesmente, passantes, um pôster de energético, latas de cerveja empilhadas, advertência da empresa sobre som alto, advertência do Governo Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente sobre venda de bebidas a menores e uma faixa, mostrando o preço promocional de outra cerveja.

Inquietei-me com tal simultaneidade de informações, refletindo sobre como esse conjunto afetaria as nossas subjetividades.















Há um tensionamento ocorrendo nesse enquadramento: as advertências e proibições com a cena da balada do casal incandescente determinando sua atitude burn, por R$5,90, bem como, com as opções menos incandescentes e mais resfriadoras das cervejas de R$1,50 e R$ 1,20. Os incautos devem beber ali e ouvir som em outro espaço? Os comerciantes respeitam a legislação e têm consciência de que vender bebidas alcoólicas a menores é crime? “Posto de gasolina” deve comercializar bebidas alcoólicas? Os incautos devem consumir as promoções de bebidas alcoólicas e incandescer/resfriar com som em outro lugar, ou devem ali permanecer numa balada, como rola nas noites em inúmeros postos, transgredindo as normas do posto e as regras de convivência, pondo em risco suas vidas e as de outros tantos pelas ruas da soterópolis? Enquanto fotografava essa cena de significações para escrever sobre o tema, pensei na moçada bacana com quem interajo cotidianamente, pensei que a festa de Iemanjá tinha ocorrido 15 dias antes naquela região e que este era o primeiro dia de Carnaval, pensei também nas vezes em que incandesci/resfriei pelas ruas e postos... Recobrei a atenção para pagar ao frentista, que me observava com estranhamento.

Ao sair do posto, me desconcerto com aquilo que considerei o desfecho dessa reflexão: funcionários da prefeitura instalando baners criativos em postes ironizando as incandescências/resfriamentos.


















a profusão de questionamentos me tomou novamente: isso é ironia ou é campanha? Quem bebe em posto liga pra esses baners? E quem bebe em casa, bares e outros lugares, também liga? Será que pode ser falta de coragem para enfrentar os consumidores/transgressores que tornam as ruas e crêem que abaixo do equador, no carnaval da Bahia (poderia ser o do Rio) não há pecados? Esse tipo de advertência, sutil, irônica e até mesmo hipócrita, custeada com dinheiro público, tem alcance, transforma atitudes? Ou são vistas e admiradas por incandescentes/resfriadores em plena atividade, ironizando a ironia?

Nosso posicionamento crítico em relação a esses interfluxos dificulta agenciamentos impregnados de uma cultura de consumo sem compromisso com autonomia e liberdade, binômio fundante do desenvolvimento individual e social. A sala de aula deve ser um fórum permanente para esses debates.

Desejando partilhar tais inquietações e discutir cidadania, laser, consumo, cultura, currículo, entre tantas outras coisas, pus-me a escrever essa aventura na urbis soteropolitana.

Aguardo as interações!